Quantas vezes o medo de encontrar algo paralisou o movimento natural de conhecer o próprio corpo? No consultório de mastologia, é comum observar que a autopercepção das mamas — o ato de observar e sentir o tecido mamário no dia a dia — muitas vezes é negligenciada não por descuido, mas por uma ansiedade profunda. Existe um estigma de que o toque serve apenas para “procurar doenças”, quando, na verdade, ele deveria ser uma ferramenta de reconhecimento da normalidade. A mama não é um tecido estático. Ela responde a estímulos hormonais cíclicos, mudando de textura, densidade e sensibilidade ao longo do mês. Entender o que é o “seu normal” é o primeiro passo para identificar o que é, de fato, uma alteração relevante. A anatomia sob os dedos: o que estamos sentindo? Do ponto de vista técnico, o parênquima mamário é composto por glândulas (lóbulos), ductos e tecido estromal (gordura e tecido conjuntivo). Em mulheres jovens, a densidade glandular é maior, o que pode tornar a palpação mais nodular e complexa.
Com o avançar da idade e a chegada da menopausa, ocorre a substituição lipomatosa, onde a gordura passa a predominar, facilitando tanto a palpação quanto a visualização em exames de imagem como a mamografia. Muitas vezes, o que a paciente sente como um “caroço” é, na análise clínica, um espessamento glandular ou um cisto simples. Cistos são coleções líquidas, geralmente benignas, que podem surgir e desaparecer conforme o ciclo menstrual. Já os fibroadenomas, muito comuns em mulheres adultas jovens, são nódulos sólidos benignos, bem delimitados e móveis à palpação. A diferenciação entre essas estruturas e uma lesão suspeita exige técnica, mas também tecnologia.
É aqui que entra o sistema BI-RADS (Breast Imaging-Reporting and Data System), uma padronização internacional que utilizamos para classificar os achados de imagem (ultrassonografia, mamografia ou ressonância magnética) e determinar a conduta: BI-RADS 2: Achados categoricamente benignos (como cistos simples ou calcificações vasculares). BI-RADS 3: Achados provavelmente benignos, exigindo acompanhamento em curto prazo (geralmente 6 meses). BI-RADS 4 ou 5: Lesões que possuem características morfológicas suspeitas e demandam biópsia (seja por agulha fina – PAAF, ou agulha grossa – Core Biopsy). Um cenário prático: a diferença entre o alerta e o pânico Imagine uma paciente de 38 anos que, durante o banho, nota uma área mais endurecida no quadrante superior externo da mama esquerda.
Ela não tem histórico familiar direto de câncer de mama. Se essa mulher possui o hábito da autopercepção, ela saberá se aquele endurecimento surgiu após a ovulação ou se é algo fixo, que persiste após a menstruação. Ao procurar o especialista, realizamos a correlação clínica. Se o nódulo for indolor, fixo e apresentar bordas irregulares, o sinal de alerta é ligado. Se for móvel e elástico, a propensão à benignidade é alta. O papel da mastologia integrada à ginecologia é justamente oferecer esse acolhimento técnico: realizar a ultrassonografia mamária para distinguir o conteúdo sólido do líquido e, se necessário, a mamografia para rastrear microcalcificações pleomórficas que a mão humana jamais alcançaria.
Dra. Carolina Malhone Cancer de mama