Você já acordou no meio da noite com o barulho de unhas batendo no piso, apenas para encontrar seu cachorro parado no meio da sala, olhando para o nada ou preso em um canto da parede? Se você convive com um cão veterano, sabe que essa cena, embora angustiante, é mais comum do que parece. Não é teimosia e nem “assombração”. O que estamos vendo ali é o relógio biológico dele perdendo o ritmo, um fenômeno intimamente ligado ao envelhecimento cerebral. O ciclo circadiano é aquela engrenagem interna que diz ao corpo quando é hora de produzir melatonina para dormir e quando liberar cortisol para despertar. Nos cães idosos, especialmente aqueles que começam a desenvolver a Disfunção Cognitiva Canina (DCC) — o que muitos chamam de “Alzheimer canino” —, essa engrenagem começa a patinar. O cérebro já não processa os estímulos luminosos da mesma forma, e a produção hormonal oscila. O resultado? Eles trocam o dia pela noite. Dormem profundamente enquanto o sol está alto e entram em um estado de agitação e confusão assim que o crepúsculo chega, o famoso sundowning. O caso do Bento: Mais que apenas cansaço Lembro-me de um Labrador chamado Bento, de 13 anos. A queixa da tutora não era uma dor articular evidente, mas sim o fato de que ele “desaprendeu” a dormir. Bento passava o dia num sono letárgico, mas às duas da manhã, começava a ganir baixo e a caminhar sem destino pela casa. Na consulta, ficou claro que o Bento não estava apenas “velhinho”. Ele estava perdendo a percepção espacial e temporal. Quando o cérebro envelhece, ocorre um acúmulo de proteína beta-amiloide (placas senis) que prejudica a transmissão de impulsos nervosos. Isso afeta diretamente o núcleo supraquiasmático, o centro de controle do nosso ritmo biológico. Para o Bento, a noite não era um período de descanso, mas um deserto de estímulos que gerava ansiedade. Como dar um “reset” no relógio biológico Muitas vezes, a primeira reação do tutor é dar um sedativo. Mas, antes de partirmos para a farmacologia pesada, precisamos ajustar o ambiente. O manejo comportamental e ambiental faz milagres pela qualidade de vida desses cães.
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Banho de sol matinal: A luz solar é o principal sinalizador para o cérebro. Levar o cão idoso para o quintal ou para uma caminhada curta e lenta pela manhã ajuda a baixar os níveis de melatonina residuais e sinaliza que o dia começou. Enriquecimento cognitivo leve: Não é porque ele tem 14 anos que não pode “trabalhar”. Esconder petiscos em tapetes de fuçar ou oferecer brinquedos recheáveis ajuda a manter os neurônios ativos durante o dia, combatendo a hipersônia diurna. Higiene do sono: À noite, evite luzes brancas fortes. Se o cão se sente perdido no escuro total por causa da catarata ou da perda de acuidade visual, use luzes noturnas de tomada (aquelas bem fraquinhas, âmbar) para que ele consiga se localizar se acordar. A nutrição como aliada do cérebro A ciência veterinária evoluiu muito no suporte dietético para cães seniores. Hoje sabemos que triglicerídeos de cadeia média (TCMs) funcionam como uma fonte de energia alternativa para o cérebro que já não processa a glicose tão bem. Além disso, antioxidantes como a vitamina E, selênio e ômega-3 são essenciais para combater o estresse oxidativo que “enferruja” os neurônios.