Você já sentiu aquela pontada chata no calcanhar logo nos primeiros passos ao sair da cama? Ou quem sabe uma rigidez que parece sumir depois de cinco minutos de caminhada, mas volta com força total após aquela partida de beach tennis no fim de semana? Se a resposta for sim, você está recebendo um “sussurro” do seu corpo. No consultório, costumo dizer que o tendão é um diplomata paciente, mas quando ele decide declarar guerra, o preço da paz é alto e demorado. O atleta amador vive um equilíbrio delicado. De um lado, o entusiasmo de superar marcas; do outro, uma estrutura biológica que nem sempre acompanha o ritmo da mente. O tendão de Aquiles, por exemplo, é o mais forte do corpo humano, capaz de suportar cargas enormes durante o salto ou a corrida. No entanto, ele possui uma zona de hipovascularização — uma área com pouco suprimento sanguíneo — a cerca de dois a seis centímetros acima de sua inserção no osso do calcanhar. É justamente ali que a maioria das rupturas acontece. A anatomia do silêncio e o erro do “no pain, no gain” Diferente do músculo, que se recupera rápido devido ao fluxo sanguíneo abundante, o tendão é um tecido denso, composto majoritariamente por colágeno.
Quando o sobrecarregamos, ele sofre microrrupturas. Se houver tempo de descanso e estímulo correto, ele se fortalece. Mas, na pressa de atingir resultados, muitos ignoram a fase de recuperação. O resultado é a transição da tendinite (inflamação aguda) para a tendinose (degeneração do tecido). Imagine um cabo de aço que começa a desfiar por dentro. Por fora, ele parece inteiro, mas sua integridade estrutural está comprometida. É aqui que entra a importância da biomecânica do pé. Um pé cavo, com o arco muito acentuado, ou um pé plano (pé chato), que desaba para dentro, altera completamente o eixo de tração desse “cabo”. Se você corre com um calçado inadequado ou possui uma pisada desalinhada, está pedindo para que o tendão trabalhe em um ângulo para o qual não foi projetado. O cenário real: o “estalo” que ninguém quer ouvir Certa vez, atendi um paciente, corredor de rua entusiasta, que sentia um desconforto leve há meses. Ele usava anti-inflamatórios por conta própria para “mascarar” a dor e continuar treinando para uma maratona. https://alejandrozoboli.com.br/fasceite-plantar/
Durante um treino de tiros de velocidade, ele sentiu como se tivesse levado uma pedrada na panturrilha. Olhou para trás e não havia ninguém. O que ele ouviu foi o grito final: a ruptura total do tendão de Aquiles. A recuperação de uma lesão dessas não é apenas cirúrgica; é um processo de reabilitação de meses. A cirurgia do pé e tornozelo evoluiu muito, com técnicas minimamente invasivas que preservam os tecidos moles, mas a biologia não pode ser apressada. O tendão precisa de tempo para cicatrizar e, depois, para ser “reeducado” a suportar carga novamente através da fisioterapia ortopédica. Estratégias de preservação Para evitar que o sussurro vire um grito, algumas medidas são indispensáveis na rotina de quem pratica esportes: Variação de estímulo: Não corra todos os dias. Alterne com natação ou ciclismo para dar descanso mecânico aos pés. Fortalecimento excêntrico: Exercícios que trabalham o músculo enquanto ele se alonga são o “padrão ouro” para a saúde dos tendões.